Quarta-feira, 10.12.14

BES: falharam as estratégias de todos, desde Salgado a Bento.

O BES vai ficar para a história como um falhanço coletivo e generalizado de todos os que o podiam ter salvo.

Falhou Ricardo Salgado e a sua estratégia, falhou Ricciardi, falhou Carlos Costa, falhou o Governo e falhou Vítor Bento.

O traço comum é que todos tinham uma estratégia para resolver o problema, e todas as estratégias falharam.

 

Ricardo Salgado foi fugindo para a frente.

Queria manter-se ao leme, queria a ajuda do Estado, queria salvar o BES e o GES ao mesmo tempo. 

Falhou rotundamente.

Nem ficou ao leme, nem salvou o GES e o BES, nem teve a ajuda do Estado a tempo.

A sua estratégia "Resistir até ao fim" colapsou e agora terá de arcar com as suas responsabilidade.

 

Ricciardi tinha uma estratégia diferente, a da confrontação do primo.

Propôs-se como candidato à liderança do GES e do BES, quis mudar o líder, mas nunca o conseguiu.

Nem ficou ao leme, nem evitou o colapso do GES e do BES.

Falhou também, e nem o facto de dizer "Eu é que avisei" o salva neste naufrágio colectivo e familiar.

Nota-se a sua frustração, o seu ressentimento, o seu acinte, mas isso não serve de nada.

 

Carlos Costa também falhou.

A estratégia do governador era o "Cerco do Animal".

Desde meados de 2013 que vinha cercando Ricardo Salgado, de forma lenta mas persistente.

Começou pela questão da idoneidade, depois passou ao GES, tentando isolar o BES, de seguida quis retirar a família do BES aceitando Vítor Bento, mas acabou com um banco em cacos.

Nunca fez um confronto direto com Salgado, talvez por receio de desestabilizar o sistema bancário.

E a verdade é que o seu cerco a Salgado foi demasiado lento, e depois tudo se descontrolou.

Portanto, Carlos Costa falhou também, pois não conseguiu evitar uma crise sistémica e o colapso do BES.

A solução final encontrada já foi tardia.

 

O Governo também falhou.

A estratégia de Passos era dizer que não tinha nada a ver com o assunto.

Eram assuntos privados, o Estado não tinha de se meter, o contribuinte não ia gastar um cêntimo com o BES.

Não quis nacionalizar, como pedia o PCP, nem emprestar dinheiro da "troika", como pediam muitos.

Como se sabe, esta estratégia também falhou.

Perante o colapso do BES, o Estado foi obrigado a emprestar 4,9 mil milhões de euros ao Novo Banco, para ele poder nascer.

Ninguém sabe quanto isso custará ao contribuinte, mas todos sabemos que vamos pagar pela trapalhada, além dos custos indirectos para a economia portuguesa.

 

Por fim, Vítor Bento também falhou.

Foi convidado a meias, o ponto de equilíbrio entre Salgado e Carlos Costa para tentar salvar o BES.

Queria falar verdade, expor os prejuízos, e capitalizar o BES com dinheiro da "troika".

De repente, tudo lhe fugiu do controle, e a separação entre banco bom e banco mau não era o que desejava.

A sua estratégia ruiu mais depressa do que ele pensava, e saiu pela porta dos fundos sem honra nem glória.

 

É esta a história do BES: a história de colossais falhanços de toda a gente, desde a gestão à família, desde a supervisão ao governo. 

É evidente que há graus de gravidade diferentes, mas todos falharam, essa é que é essa.

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 11:55 | link do post | comentar
Quinta-feira, 27.11.14

Porque raio lhe chamaram Operação Marquês? (envie o seu palpite!)

Porque chamaram ao caso Sócrates a "Operação Marquês"?

É a minha única perplexidade nesta situação.

Qual a razão? O Marquês vem de onde? 

 

A primeira hipótese que coloquei foi porque a casa de Sócrates é próxima do Marquês de Pombal.

Sim, é verdade, mas também é próxima do Rato, e não lhe chamaram Operação Rato, nem Operação Eduardo VII, nem operação Castilho.

Tem de haver outra razão.

 

Será porque o DCIAP acha que Sócrates é semelhante ao Marquês de Pombal?

De facto, o senhor Sebastião José de Carvalho e Melo, depois de ter sido primeiro-ministro muitos anos, caiu em desgraça, foi acusado de muitos crimes, e acabou por ser preso e depois exilado em Pombal.

Terá a Operação Marquês sido baptizada assim por causa dessas ligeiras semelhanças?

Se foi, acho um pouco exagerado. 

Caramba, o Marquês de Pombal foi uma das quatro ou cinco personagens mais importantes da História de Portugal, e compará-lo com Sócrates é dar demasiada importância a este último.

 

Uma terceira hipótese, era o nome ser uma tentativa de equivalência de cargos da República com os da Monarquia. 

Na República, o cargo mais importante é o de Presidente da República, seguindo-se o de Primeiro-Ministro, que é o segundo mais relevante, e era o de Sócrates.

E na Monarquia, a seguir aos Reis vêm os Marqueses? Não, antes ainda existem os Duques, que são mais importantes que os Marqueses, por isso não deve ser essa a razão do nome da Operação.

 

Enfim, nenhuma das explicações me satisfaz, por isso deixo aqui uma sugestão aos meus leitores.

Enviem para cá as razões porque acham que se chamou Operação Marquês.

Pode ser que me elucidem, ou que o DCIAP se resolva a explicar.

 

Pelos menos nos furacões, a gente sabe a razão de se chamarem Katrina, ou coisa assim.

Acho que nas Operações também devia ser revelado o porquê dos nomes. 

Face Oculta, por exemplo, ainda se compreende. Marquês é que não é fácil?

publicado por Domingos Amaral às 10:35 | link do post | comentar | ver comentários (5)
Terça-feira, 25.11.14

Os políticos não são todos iguais

Ninguém pode negar que o "Big Show Sócrates" foi emocionante e espectacular!

Aviões, pneus a chiar, manifs, calabouços, tivemos direito a tudo à grande e à portuguesa.

Como espectáculo, foi cinco estrelas, o TIC está de parabéns pela superprodução que animou os últimos dias da nação. 

 

Polícias, juízes, Delegados do ministério Público, jornalistas e espectadores em geral, todos gostam disto.

Todos gostam e todos querem isto!

Quanto mais espectáculo, melhor para todos!

 

A justiça portuguesa está cada vez mais semelhante à brasileira ou à americana, onde o "show" é relevante.

A detenção de Sócrates recordou-me a de Strauss Khan, em Nova Iorque, depois de alegadamente ter tentado violar uma empregada de hotel.

Também o foram buscar ao avião e o engavetaram, no meio de grande estardalhaço.

 

Pela minha parte, não estou nem chocado, nem sequer surpreendido.

Há anos que ouço falar em casos nebulosos onde o nome de Sócrates aparecia.

Sempre achei que, mais tarde ou mais cedo, algo parecido com o que se está a passar iria acontecer.

Se é culpado ou não, se verá depois, mas para já aconteceu história.

 

Quanto ao resto, apenas quero comentar uma frase de Passos Coelho.

A intenção dele era óbvia, quando disse este fim de semana que "os políticos não são todos iguais".

Com uma frase, diferenciava-se de José Sócrates, que estava detido e a prestar declarações.

Com uma frase, deixava a entender que ele, Passos, era bom, e o outro, Sócrates, era péssimo.

Foi um ataque compreensível e aceitável, mas não estou certo que seja muito eficaz.

 

É que a frase de Passos tem demasiada latitude, e abre até uma porta interessante a António Costa, que ele poderá explorar no futuro.

Os políticos não são todos iguais, é bem verdade, mas isso tanto serve para distinguir Passos de Sócrates, como para fazer outras distinções, positivas ou negativas.

 

Mário Soares não é igual a Cavaco Silva, nem Guterres é igual a Santana Lopes.

Portas não é igual a Jerónimo de Sousa, nem Louçã é igual a Ferro Rodrigues.

Os políticos não são todos iguais. Aliás, são todos diferentes.

E qual a conclusão a retirar? Bem, há uma óbvia: António Costa não é igual a José Sócrates.

 

Com a sua declaração, Passos abriu uma porta por onde Costa se pode defender.

Da próxima vez que o PSD ou o CDS o atacarem, dizendo que era o nº 2 de Sócrates, António Costa poderá citar Passos Coelho, dizendo que "os políticos não são todos iguais". 

E será verdade, pois ninguém acha Costa igual a Sócrates. 

A reconstrução do PS, naturalmente abalado nestes dias, pode passar por aí.

 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 20.11.14

A RTP e o escândalo da Champions

Segundo notícias conhecidas ontem, e hoje reproduzidas em muitos jornais, a RTP adquiriu os direitos da Liga dos Campeões para os próximos três anos, entre 2015 e 2018, pela quantia de 18 milhões de euros!

 

Depois de se ter retirado, e bem, dessas guerras em 2012, seguindo as instruções de um governo liberal que não queria nem podia suportar despesas com jogos milionários, a RTP volta agora ao jogo, embora o Governo seja ainda o mesmo.

 

A primeira pergunta que se deve colocar é: deve uma empresa que dá prejuízo ao Estado, e portanto aos contribuintes, concorrer a um concurso da Liga dos Campeões, pagando milhões de euros?

A resposta é óbvia: não deve. Uma empresa pública fortemente deficitária deve gastar o seu pouco dinheiro noutras prioridades.

 

A segunda pergunta que se deve colocar é: deve essa empresa fazê-lo numa época de austeridade, em que o Governo corta pensões e subsídios a muitos, e aumenta os impostos de todos os portugueses?

A resposta é óbvia: não deve. Que moral tem o Governo para pedir sacrifícios aos portugueses, quando depois a RTP gasta milhões com jogos de futebol?

 

A terceira pergunta que se deve colocar é: deve a RTP entrar na disputa dos jogos da Liga dos Campeões quando há canais privados (TVI e SportTV) dispostos a isso?

A resposta é: não, não deve. Não havendo uma falha de mercado, não há razão nenhuma para a RTP concorrer contra os canais privados.

 

A quarta pergunta que se deve colocar é: deve a RTP pagar milhões a uma entidade milionária como a UEFA e os seus intermediários, que são quem vende os direitos da Liga dos Campeões?

A resposta óbvia é: não, não deve. Se tem 18 milhões de euros para gastar, a RTP deveria usá-los a financiar programas nacionais, e não a encher os cofres de instituições estrangeiras que já são podres de ricas.

 

Mas, infelizmente, temos um Governo que só é liberal e poupado quando lhe dá jeito.

Promete não interferir em negócios privados, mas interfere; e promete poupar dinheiro ao contribuinte, e esbanja-o em jogos da liga milionária.

 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:16 | link do post | comentar | ver comentários (7)
Terça-feira, 18.11.14

Contra a Alemanha e a austeridade, marchar, marchar!

Nos últimos meses, muitos foram os que fizeram apelo aos estímulos económicos, para combater a recessão que parece regressar à Europa, e talvez ao Japão.

 

Mario Draghi fez em Setembro um célebre discurso, onde falou em expansão orçamental, e o BCE vai começar o seu programa de expansão monetária.

No Japão, o banco central já está activamente a intervir, e o primeiro-ministro Abe está a repensar o lançamento a subida dos impostos.

 

Em Inglaterra, ainda ontem Cameron dizia que era preciso investimento público, pois o Reino Unido está a ser ameaçado pela recessão europeia, o que já levou o governador do Banco de Inglaterra a manter os estímulos monetários no país.

Na América, Obama pede mais intervenção dos outros países, para não ser apenas a América a única locomotiva da economia mundial, e o FED está a refletir sobre se deve subir já as taxas de juro, com o perigo de deflação à espreita.

Em França e em Itália, Hollande e Renzi fazem apelos constantes à intervenção da Europa, com mais investimento, e ao relaxamento das duras regras, que já admitem não vir a cumprir.

 

Olha-se para o mundo inteiro, e o que se vê são líderes preocupados com a recessão.

Todos? Todos não, os alemães resistem ainda, e não querem admitir o óbvio: a austeridade afocinhou a Europa numa longa recessão, ou em três recessões consecutivas, desde 2009. 

A fúria austeritária germânica, que impôs o Tratado Orçamental à Europa, um desvario perigoso, está cada vez mais isolada, mas só a sua mera existência mantém a Europa numa grave crise.

 

O ódio à dívida pública e à despesa do Estado, sempre estimulado pela direita e pelos liberais, é uma loucura em épocas de recessão, só agravando a crise.

Mas, tal como antes socialistas ou comunistas, a ideologia tola cega os que a praticam, e alemães e seus apoiantes recusam-se a olhar para a realidade e a perceber que assim não há saída da recessão.

A escolha é simples: preferem desemprego e recessão, ou deficit público e alguma dívida?

Eu prefiro claramente a segunda solução.

publicado por Domingos Amaral às 11:35 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 17.11.14

Os vistos douradinhos

Coitado do Governo do Passos...Mal tinha saído da trágica balbúrdia da Justiça, e da terrível trapalhada da colocação dos professores, caem-lhe em cima os vistos gold!

SIS, SEF, Ministério da Justiça, Ministério do Ambiente, Instituto dos Registos Notariais, é um polvinho cheio de tentáculos, douradinhos trágicos que não só envolvem altos dirigentes do Estado, como empresários privados e ainda chineses.

 

É assim a natureza humana: abre-se a porta ao dinheiro, e ele entra, mas muitas vezes nem licença pede, entra pelas frestas, pela janela, pelo tecto e pelo chão, e é tanto a entrar que, porque é que alguém não pode lucrar com isto um bocadinho?

Com tantos douradinhos por aí, não poderei eu comer um também?

É sempre esse o pensamento do funcionário, do director de serviços, do secretário-geral: são tantos milhões a entrar, quem vai dar pelo desvio de 10 ou 20 mil euros?

E assim se facilita, se despacha, se concede um vistinho doirado, e se aumenta a continha no banco.

 

Os vistos gold têm esse problema, o gold é muito tentador, é uma alquimia dos diabos, tudo o que luz é ouro!

Mas, que ninguém esperava deste Governo um caso tão grave, isso também é verdade.

Muita gente continua a achar que os socialistas são mais corruptos, que Sócrates era isto e aquilo, mas o que é verdade é que não me lembro de um caso de corrupção tão grave em tempos de outros Governos.

Passos Coelho, além de muita coisa, tem azar.

Havia de ser logo no Governo dele que estes "douradinhos" tinham de existir!

E, para quem bramiu contra os "negócios com amigos", e para quem, como Passos, disse que estávamos num novo tempo mais limpo, estes são "douradinhos" muito difíceis de engolir.

 

publicado por Domingos Amaral às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quarta-feira, 12.11.14

As taxinhas do Costa e as taxonas do Pires de Lima

Qual a diferença entre as taxinhas do Costa e as taxonas do Pires de Lima?

Se um turista pobretanas vier a Lisboa passar um fim de semana, e gastar 400 euros em despesas, pagará uma taxona de IVA sobre essas despesas, e 75 euros serão diretos para o Estado.

Em comparação, em 2015 pagará apenas 1 euro de taxinha do Costa.

75 contra 1, é giro, não é?

 

Mas, se for um turista mais abonado, que gaste 1000 euros no fim de semana, a diferença ainda é mais gira. Desse total, em 2105 cerca de 187 euros irão para o Pires de Lima, enquanto apenas 1 euro irá para o Costa.

187 contra 1, é giro, não é?

 

E, se for um milionário, que se instale em suites presidencias e coma nos melhores restaurantes, enquanto torra dinheiro nas lojas de luxo da Avenida da Liberdade, gastando 5 mil euros no fim de semana, teremos que 935 euros serão o IVA do Estado, e apenas 1 eurito irá para o Costa.

935 euros contra 1 euro, é giro, não é? 

 

Apesar destas enormes diferenças, o ministro Pires de Lima atacou António Costa por causa das taxas aos turistas que a Câmara de Lisboa irá introduzir em 2015 e 2016.

No próximo ano, cada turista que aterrar na Portela pagará um euro. 

No ano seguinte, além disso, cada turista pagará outro euro por dormida nos hotéis da capital. 

Portanto, em 2016, um turista que cá venha passar uma noite e chegue de avião, pagará a fantástica quantia de 2 euros!

 

Aparentemente, o ministro Pires de Lima considera esta taxa, a que chamou jocosamente taxinha, como um perigo, capaz de afastar os milhões de turistas que visitam a capital e o país.

Ora, este vil ataque político, é na verdade um enorme exagero, sobretudo vindo de um governo que massacrou os portugueses com impostos, e subiu o IVA fortemente, ainda o subindo mais na restauração. 

Se a taxa de 1 euro é uma taxinha, as taxas de IVA de Pires de Lima são verdadeiras taxonas!

Embora tenha sempre dito que as queria descer, Pires de Lima teve de meter a viola no saco já por duas vezes, e manteve as suas taxonas altíssimas. 

É preciso ter muita cara de pau, como dizem os brasileiros, para Pires de Lima, o rei das taxonas, atacar a taxinha do Costa.

É "House of Cards", temporada 2: vale tudo!

publicado por Domingos Amaral às 10:37 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 11.11.14

Legionellas, ebola, vacas loucas, viva a indústria do medo!

As doenças, os surtos, as epidemias são as melhores histórias comunicacionais dos tempos modernos.

A narrativa é sempre semelhante: há uma doença que se propaga, é perigosa, pode matar muita gente, os países têm de estar alerta, tenham medo, tenham muito medo!

A comunicação social repete até à exaustão a história, acrescenta-lhe pontos de interrogação, dúvidas, especulação, como convém numa boa história.

Os poderes públicos vêm dizer que estão preparados, mas a doença continua a propagar-se, gerando cada vez mais receio e muita desconfiança. 

Começa a morrer gente, mudam-se comportamentos, têm-se medo de carne, de spas e piscinas, de cães, de vacas, de aves, de tudo.

 

Nos últimos anos, lembro-me de várias epidemias globais ou locais, que iam pôr em perigo a nossa sobrevivência.

Doença das vacas loucas, gripe das aves, gripe HN1, ébola, legionella, a matança vinha aí e era sempre generalizada, atroz, terrível.

Bem, como sabemos, tudo não passou de um susto. O nosso cérebro não explodiu por causa da carne, não morremos por contágio de gripe, o ébola foi contido, a legionela está localizada numa região.

Porém, não ganhámos para o susto, e não havia alma humana que não temesse a proximidade trágica da mortandade geral.

 

A história da Europa e do mundo está cheia de terríveis epidemias, como a peste negra, a gripe espanhola, a sífilis, a sida, e talvez por isso tenhamos entranhados na psique estes medos sinistros, que nos fazem entrar em pânico à primeira suspeita de perigo.

Apesar de vivermos na época mais saudável da história da humanidade, apesar dos avanços da ciência e da medicina, apesar dos milhares de antibióticos que nos protegem, não descansamos, e mal surgem umas notícias começamos logo a ver a vida a andar para trás.

 

É um bocado tonto, mas os seres humanos são assim. Têm medo, e quanto mais vago melhor.

Morrem mais pessoas de tubercolose todos os anos do que qualquer das outras doenças, mas quem quer saber disso? É uma história antiga, não vale nada, o que queremos é novas doenças!

Venha a próxima! 

publicado por Domingos Amaral às 11:40 | link do post | comentar
Quinta-feira, 06.11.14

Já ninguém tem medo da Rússia?

Quando eu era miúdo, a Rússia metia muito medo.

Os soviéticos formavam a URSS, toda poderosa, cheia de mísseis balísticos.

Metade da Europa era deles, cercavam Berlim e invadiam o Afeganistão quando queriam.

Também eram comunistas à séria, de barba rija, e todos vivíamos com receio que eles invadissem o lado de cá.

O Brejnev, por exemplo, era medonho e grotesco, e certamente por isso metia-me medo, com aquela carantonha feia, e o poder de tocar nuns botões e dar cabo de um país.

 

Trinta e tal anos depois, já ninguém parece ter medo da Rússia, e a própria Rússia perde tempo com disparates que não enganam ninguém.

Nas últimas semanas, Putin tentou mostrar que ainda tem umas forças armadas poderosas, e fez umas aparições por aí, para pregar um pequeno susto aos europeus e aos americanos.

 

Primeiro foi um submarino russo, que andou a brincar às escondidas com a marinha sueca.

Depois foram uns enormes bombardeiros que cruzaram o Atlântico, o que gerou uma excelente oportunidade para boas fotografias, e também para os F-16 portugueses mostrarem algum serviço.

Por fim, parece que outro navio anda por aí a passear-se pelas águas territoriais portuguesas, sendo escoltado ordeiramente para fora do nosso mar, não fosse matar alguns peixinhos.

 

A verdade é esta: estas exibições masculinas de Putin só servem para alegrar os parolos russos que ainda o apoiam, mas não metem medo a ninguém. 

Putin parece uma criancinha, a tentar impressionar as outras com os seus brinquedos, os seus barquitos, os seus aviõzitos, os seus submarinozitos. 

Melhor seria ele organizar um parque temático militar e vender bilhetes, sempre ganhava algum. 

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:34 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Terça-feira, 04.11.14

Os dias negros do liberalismo económico à portuguesa

O liberalismo económico à portuguesa tem vivido anos negros.

A banca explodiu em crises variadas, golpadas e falências.

BCP, Banif, Caixa, BPI, todos foram ajudados pelo Estado, para evitar sarilhos colossais.

BPN e BPP faliram em grande, e o BES, que orgulhosamente rejeitara a ajuda da troika, estilhaçou-se em mil pedaços.

 

A PT, essa multinacional atlântica de grande potencial, meteu-se num desastroso negócio com a Oi, e torpedeada pelo BES, está à deriva, à beira de ser vendida como filial da Oi.

A Jerónimo Martins, até há anos tão bem sucedida, vive grave crise na Polónia, e cai a pique na bolsa.

A Sonae, com o seu estilo próprio, e a sua força industrial, vive dias dolorosos, e a Optimus já se enfiou debaixo da asa dos angolanos, na Nos.

Resta o quê, ao liberalismo português? Há a pasta de papel, os azeites, e uma ou outra construtora civil de grande porte, mas o resto é uma miséria.

 

Aqui há vinte anos, não havia ninguém que não defendesse a gestão privada, as privatizações, a superioridade dos privados sobre os públicos.

Olhava-se para as empresas públicas e apontava-se o dedo aos tenebrosos prejuízos que todos pagávamos.  

Clamava-se por venda a privados, e em muitos casos elas foram feitas.

Porém, vinte anos depois, o que vemos nós?

Tragédias, falências, necessidade de dinheiros públicos, uma salganhada sem nome.

 

A gestão privada é melhor que a pública, como sempre defenderam os liberais?

A gestão pública é melhor que a privada, como sempre alegaram os socialistas e comunistas?

Aos 47 anos, a resposta que consigo dar a ambas as perguntas é: são ambas más, mas não há melhor. 

A vida económica do mundo sempre foi feita de desgraças e falências e má gestão, enquanto pelo meio vão existindo alguns fenómenos bem sucedidos. 

Privadas ou públicas, as gestões raramente evitam as crises, e quase sempre são responsáveis pelas tragédias. 

Sempre foi assim e assim será.

 

A PT, por exemplo, foi durante muitos anos uma péssima empresa pública, que nos tratava muito mal a todos, seus clientes.

Quando passou a totalmente privada, deu-lhe a louca e em poucos anos rebentou-se. 

Voltar a ser pública não resolverá nada, mas também não acredito que vá melhorar muito com outros privados.

Os seres humanos são quase sempre tolos, sejam gestores públicos ou gestores privados. 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:24 | link do post | comentar
 

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