Segunda-feira, 16.11.15

O Médio Oriente é uma esquizofrenia geral, mas criminosos são criminosos

Logo após os atentados de Paris, muitos foram os que não tiveram dúvidas.

A culpa disto tudo é de George W. Bush e da intervenção no Iraque, que lançou a região no caos.

Se fosse tão fácil de explicar, seria simples, mas não é.

Se há coisa que não falta no Médio Oriente são culpados, existem para todos os gostos.

 

Quem começou tudo? Foi o Xá da Pérsia ou o Khomeni? Foi o Saddam ou o Ben Laden? Foi o Bush ou o Arafat? Foi Israel ou o Assad?

Não há maneira de encontrar um rasto de lógica em quase nada, no Médio Oriente. 

A balbúrdia dura há seculos e ninguém tem as mãos limpas.

A esquerda adora culpar a América e Israel, e ninguém no seu juízo perfeito pode contestar que ambos têm muitas culpas. Porém, não são os únicos.  

 

A culpa é de Bush? Sim, mas também é da Al-Qaeda e dos iraquianos, dos xiitas e dos sunitas, do Irão e da Rússia, de Assad e das milícias sírias em revolta.

Culpados são os curdos e a Turquia, os mujahedins e os taliban, os egípcios e os líbios, os israelitas e os palestinianos, o Qatar e a Arábia Saudita, a França e a Inglaterra, o Hamas e o Hezbolhah, e por aí fora.

Arranjem-me um país inocente na região, uma potência local que tenha as mãos limpas, um grande país mundial que nunca lá tenha metido o bedelho!

 

Se há coisa certa no Médio Oriente é que aquilo é uma esquizofrenia absoluta, onde os amigos de hoje são os inimigos de amanhã e onde todos já apoiaram, de uma forma ou de outra, as matanças cíclicas da região.

Quem queira culpar uns mais que os outros, pode ficar a sentir-se muito bem, mas não acrescenta nada.

 

Desta vez há porém algo novo: o Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou lá como se chama a coisa, tem características especiais de selvajaria e não tem comparação fácil.

As atrocidades que esse movimento tem cometido no Iraque e na Síria são inimagináveis.

Ainda a semana passada ouviram-se notícias do fuzilamento de centenas de crianças, a sangue-frio.

O nível de brutalidade deste movimento é único e infelizmente é por isso que ele se tornou tão forte e tão popular entre os seguidores.

 

Para nós, europeus e ocidentais, é difícil de compreender que existam pessoas que sonham com o califado, que adoram cortar cabeças e matar gente, e que desejam destruir a civilização ocidental.

Mas elas existem e passeiam-se nas ruas de Paris de Kalashnikov aos tiros.

Estão dispostos a tudo, são criminosos treinados para matar e não vão parar.

 

É essencial que a Europa perceba que está perante um movimento bárbaro, que junta o regresso à violência medieval com as novas tecnologias e armas do século XXI.

Perante tal ferocidade, não podemos continuar a fazer de conta que os terroristas podem circular livremente, entrar e sair pelas fronteiras europeias e nada lhes acontece.

 

Se há coisa que me causa perplexidade é essa: como é que a Europa permite que voltem a entrar pelas suas fronteiras homens que vão à Síria, ao Iraque, ao Iemen, à Líbia, fazerem cursos de pós-graduação em terrorismo?

A complacência e a tolerância com estes selvagens tem de acabar.

Se perseguimos pedófilos, traficantes e serial killers, porque é que deixamos a porta aberta para terroristas? 

São criminosos e é como criminosos que têm de ser tratados.

 

O resto é conversa.

A culpa do Bush, a vaga de refugiados, a má integração dos imigrantes, a guerra da Argélia, a crise económica da Europa, os bairros da periferia de Paris, é tudo muito interessante para nos entretermos em longos debates, mas não muda o essencial.

Crime é crime, assassinos são assassinos, e são eles que têm de ser combatidos e impedidos.

 

publicado por Domingos Amaral às 11:24 | link do post | comentar
Terça-feira, 10.11.15

Ainda se lembram do "que se lixem as eleições" de Passos Coelho?

Com a sua célebre frase "Que se lixem as eleições", Passos pretendia demonstrar que o interesse nacional estava acima dos seus cálculos eleitorais.

Contudo, se fosse um político com mais experiência, que Passos não tinha quando chegou ao Governo, ele teria farejado o perigo.

 

As políticas económicas e financeiras de um Governo, sejam elas quais forem, têm sempre consequências políticas.

Uma coisa é a economia teórica, outra a economia política.

 

Durante quatro anos, Passos desprezou tais consequências, enquanto aplicava com crença a sua "austeridade expansionista". 

É falso ele vir dizer agora que "a austeridade era uma necessidade e não uma escolha ideológica".

A austeridade violenta que Passos aplicou foi uma escolha dele e de Vítor Gaspar, a que a "troika" deu a benção.

 

Muitos, desde 2011, vinham avisando a direita de que dureza a mais seria contraproducente. 

Mas Passos insistiu. Cortou dois subsídios, em vez de um. Cortou várias vezes as pensões, em vez de só uma.

Tentou alterar a TSU, em vez de não ir por aí. E insistiu num aumento brutal de impostos, quando poderia ter feito um aumento bem menor.

 

Bem sei que a austeridade é fácil de explicar ao povo. 

Gasta-se a mais, é preciso cortar despesa. Há pouca receita, é preciso subir impostos. Toda a gente percebe.

Porém, ser fácil de explicar não significa que não tenha consequências políticas, e elas estão à vista de todos.

 

Também noutros países da zona euro, a direita que aplicou a austeridade foi afastada do poder.

Em França, perdeu Sarkozy e venceu Hollande. Em Itália, perdeu Berlusconi e venceu Renzi. Na Grécia, perdeu Samaras e venceu Tsipras.

E, mesmo na Alemanha, Merkel foi obrigada a governar com o SPD, aceitando medidas de esquerda, como a subida do salário mínimo.

 

Por cá, não surpreende pois que a coligação PSD/PP tenha perdido a maioria absoluta.

A austeridade retirou a Passos e Portas cerca de 750 mil votos.

O país saiu do resgate, mas o preço político pago pela coligação foi bem alto.

 

Mais relevante ainda, a austeridade mudou a prática política nacional.

Quatro anos de dureza levaram ao impensável: a união das esquerdas em Portugal.

A cola que une o PS, o PCP e o Bloco é apenas a rejeição total de Passos e Portas.

 

Surpresa? Só para quem anda distraído. Na zona euro, nos últimos anos é a esquerda que tem vencido.

Não somos originais, e ou muito me engano ou algo semelhante se passará em Espanha, nas eleições de Dezembro.

 

Quando a direita despreza as consquências políticas da sua governação, o resultado só podia ser este.

Que se lixem as eleições? Pelos vistos e para já, quem se lixou foram Passos e Portas...

publicado por Domingos Amaral às 10:21 | link do post | comentar | ver comentários (11)
Segunda-feira, 09.11.15

"Assim Nasceu Portugal" já na 5ª edição!

Lançado em Maio, o meu último livro, "Assim Nasceu Portugal", chegou já à 5ª edição. É um bom motivo para estar contente, e agradeço a todos os leitores que já o leram.

 

Foi um livro que gostei muito de imaginar e escrever, acho que a história ficou muito bem contada, e fico feliz por perceber que os leitores também pensam o mesmo.

 

A vida de Afonso Henriques, as lutas contra a sua mãe, Dona Teresa, o amor secreto do príncipe de Portugal por Chamoa Gomes, a chegada dos Templários a Portugal e os conflitos permanentes com os muçulmanos, são os ingredientes deste primeiro volume de uma trilogia.

 

Em Abril de 2016 será publicado o segundo volume, chamado "Assim Nasceu Portugal - A Vitória do Imperador", onde se contará a história do casamento secreto de Afonso Henriques, enquanto ele luta contra o seu primo direito, Afonso VII, Imperador de Leão, Castela e da Galiza, e também contra os muçulmanos. 

 

Mas, para já, está nas bancas esta 5ª edição, e para quem não tem ainda muitas ideias, sugiro este meu livro como um bom presente de Natal!

publicado por Domingos Amaral às 09:47 | link do post | comentar
Segunda-feira, 26.10.15

As várias desgraças e derrotas do Benfica

A derrota de ontem do Benfica contra o Sporting, clara e inequívoca, foi o ruir final das ilusões sobre a qualidade da equipa.

Depois do que se passou, já ninguém tem dúvidas.

Este ano, o Benfica não tem, nem um grande plantel, nem um grande treinador, preparado para voos destes.

Contudo, a derrota de ontem não aconteceu por acaso.

Ela é a consequência lógica de uma série de erros e apostas de alto risco, feitas pelas direção do Benfica.

 

O primeiro erro, é agora óbvio para todos, foi ter dispensado um treinador bicampeão nacional, chamado Jorge Jesus.

Sim, Vieira errou em tê-lo deixado à solta, mas é preciso dizer que muitos outros na Luz desejaram isso mesmo.

Moniz, Gomes da Silva, Rui Costa, Luisão, e muito mais gente, estavam fartos de trabalhar com Jesus, e queriam correr com ele. 

A famosa "estrutura" rejeitava-o, e rejubilou quando ele partiu.

 

Ora, está à vista que a estrutura, sem Jesus, tem graves deficiências.

Foi ele que ergueu o Benfica a um patamar onde não tinha estado em várias décadas.

Não foi a "estrutura", e para quem pensava o contrário, os factos são avassaladores.

Em 11 jogos oficiais, o Benfica já leva 5 derrotas, três na Liga, uma na Champions e a Supertaça.

Pior era difícil de imaginar.

 

Esta situação quase confrangedora é uma consequência clara do segundo erro da "estrutura".

Ao escolher um treinador que nunca treinara um grande, a estrutura aumentou ainda mais o risco da época.

Rui Vitória é um cavalheiro, e até acredito que venha a ser um grande treinador, mas ainda não o é.

Não tem nem um curriculo admirável, capaz de atemorizar os adversários, nem um estilo combativo e agressivo, capaz de provocar mossa nos "mind games".

Dizer que o Sporting "são onze jogadores, mas não uma equipa", foi um dramático erro de principiante.

Como é evidente, teve de engolir uma humilhação no relvado, e já está há três meses a levar baile de Jorge Jesus. 

 

Contudo, Rui Vitória não é o principal responsável de uma época que, no campeonato, está praticamente perdida.

O terceiro grave erro da estrutura foi quando decidiu "desinvestir".

Para quem viu passar pela Luz jogadores do calibre de Aimar, Saviola, Cardozo, Ramires, Di Maria, David Luiz, Fábio Coentrão, Matic, Enzo Pérez, Markovic, Lima, Rodrigo, olha-se para o onze actual e é quase deprimente.

Tirando três bons jogadores, Júlio César, Gaitan e Jonas, o resto ou são assim-assim - Jardel, Samaris, Pizzi, Jimenez, Mitroglu -, ou são muito fracos - Eliseu, Sílvio, Luisão, André Almeida - , ou são meros projetos de futuro, como Gonçalo Guedes.  

 

E, por falar em jovens, apresente-se o quarto erro da "estrutura".

Fazer da aposta no Seixal uma bandeira é bonito, mas é arriscadíssimo, sobretudo quando isso se faz ao mesmo tempo que se muda de treinador e que se desinveste em bons jogadores estrangeiros.

Querer fazer tudo na mesma época foi uma tolice que o Benfica já está a pagar caro. 

A não ser que se dissesse claramente que não íamos ser campeões no prazo de dois anos, preparando os sócios para uma travessia lenta mas necessária, a aposta dá no que se está a ver. 

 

Mas se julgam que apenas isto correu mal, desenganem-se.

As desgraças não acabam no futebol.

Nos departamento jurídico e de comunicação, o Benfica tem dado tiros nos pés atrás uns dos outros.

Quem foi o brilhante génio que decidiu pedir 14 milhões de euros de indeminização a Jesus?

O absurdo da quantia descredibilizou o processo, em vez de o tornar sério.

Parece uma brincadeira de marketing, não uma verdadeira justa causa.

E, se a ideia era desestabilizar JJ, está à vista o fiasco da tontaria.

 

E que dizer do verdadeiro desastre que são as presenças televisivas de vários benfiquistas?

Que dizer dos embaraçosos "vouchers" de refeições?

Quando a estrela do Benfica é, não um jogador ou um treinador, mas um comentador televisivo quezilento e agressivo, como Pedro Guerra, está tudo dito.

Este ano, o objetivo máximo do Benfica é ser odiado?

 

Só nos faltava mesmo a UEFA ter-nos colocado em pena suspensa.

Basta uma "tocha" atirada por um energúmeno e lá virão os jogos à porta fechada, para nossa imensa vergonha.

Até o único motivo de alegria da época, vencer em Madrid, teve de ser ensombrado com selvajarias...

 

A verdade é esta: têm sido cinco meses de total desastre no meu clube.

Era bom que alguém parasse para pensar e esse algém tem de ser o presidente.

Por isso aqui lanço uma pergunta: presidente Vieira, acha mesmo que estas estratégias arriscadas e trapalhonas nos levam a algum lado? 

publicado por Domingos Amaral às 11:10 | link do post | comentar | ver comentários (14)
Sexta-feira, 23.10.15

Cavaco é um "ganda" maluco!

O que quiz fazer e dizer Cavaco, ontem à noite?

Indigitar Pedro Passos Coelho era um gesto esperado, e consistente com a prática política portuguesa.

A surpresa não foi essa.

Mesmo sabendo que Passos dificilmente terá um programa aprovado no parlamento, Cavaco decidiu que valia a pena tentar.

Nada a dizer por aí.

 

Contudo, ao criticar duramente o PS, o Bloco e o PCP, o presidente deu a entender que jamais nomeará um governo apoiado pelas três forças de esquerda.

Com isso, elimina uma segunda solução possível para o Governo de Portugal.

Ao insistir que Bloco e PCP não apoiam a Europa e a Nato, Cavaco anula uma hipótese viável, sem dar qualquer alternativa.

 

Mas, o erro maior foi o apelo à desunião do PS.

Ao falar na consciência individual dos deputados, o presidente deu o seu aval à revolta no PS, tentando que a ala dos seguristas se afastasse de Costa, votando a favor do Governo de Passos Coelho.

Ora, os partidos são entidades que não gostam de ser atacadas, e quando o são, têm tendência para se unirem à volta do líder.

 

Assim foi com o PS.

Horas depois da comunicação de Cavaco, já o PS dizia que ia chumbar o governo de Passos, e até os moderados, como Assis, consideravam inaceitáveis as palavras do presidente. 

O "boomerang" regressou e bateu na cara de Cavaco.

 

Em resumo: o discurso do presidente dividiu ainda mais as águas, afastando cada vez mais as forças de direita das forças de esquerda.

Agora, ou se está de um lado, ou se está do outro.

Contudo, esta clarificação não adianta nada.

O que fará Cavaco, se Passos for chumbado na Assembleia?

Mantém em gestão o governo, sem Orçamento, até que seja eleito novo presidente?

 

A outra hipótese é a nomeação de um governo de iniciativa presidencial.

Cavaco chamaria alguém de fora dos partidos, para governar o país durante seis meses.

Mas, quem apoiará esse mal amado governo?

Nem a direita nem a esquerda o quererão fazer...

 

O discurso de Cavaco lançou Portugal numa guerra política sem precedentes.

Os próximos tempos serão divisionistas, duros e complexos para todos.

A direita está radicalizada e unida, a esquerda está radicalizada e unida.

E a eleição presidencial vai transformar-se também numa guerra entre esquerda e direita.

Um dos principais prejudicados do discurso de Cavaco foi Marcelo, e o maior beneficiado foi Sampaio da Nóvoa.

 

Se a intenção de Cavaco era deixar a presidência da República com um governo da sua área política em São Bento e um presidente da sua área política em Belém, acho que fez tudo errado.

Passos vai ser derrubado, e quem sabe se Marcelo não começou a perder as eleições.

Ontem, Cavaco foi mesmo um "ganda" maluco. 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:29 | link do post | comentar | ver comentários (11)
Quarta-feira, 21.10.15

A pressa em chegar ao poder é má conselheira

À direita e à esquerda, está tudo cheio de pressa em chegar ao poder.

Passos Coelho, ontem ao sair de Belém, pediu celeridade.

Os investidores, as expectativas, o orçamento, é necessário o presidente despachar-se e indigitá-lo sem perder tempo.

Mas, a gente pergunta-se: e para quê tanta pressa?

Ao mesmo tempo que pede a indigitação, Passos admite que não pode garantir um governo com apoio maioritário no parlamento.

Então pressa para quê? Para o seu governo cair mais depressa?

 

Do outro lado, a coisa não está melhor.

Costa, Catarina e Jerónimo acham que não vale a pena o presidente nomear Passos, que vai ser derrubado, e por isso era melhor queimar etapas e ser nomeado já um governo chefiado por Costa.

Catarina lá vai dizendo que precisam de mais "um ou dois dias", coisa pouca, já há acordo pronto, mas...a verdade é que ainda não há acordo nenhum que se veja.

Para quê tanta pressa, quando a esquerda ainda não conseguiu mostrar à população um acordo firme e duradouro, estável e sólido?

 

Na verdade, além da pressa, há dois pontos comuns, entre esquerda e direita.

Todos querem ser governo, mas nem um lado nem outro garante que vai haver um governo sólido e estável.

Portanto, eu se fosse ao Cavaco mandava-os continuar a conversar uns com os outros. 

Enquanto não existirem acordos sólidos, venham de onde vierem, não deve haver governo.

 

Noutros países europeus, as negociações entre partidos demoram meses, mas os portugueses andam com um despacho que até enerva. 

Que tal serem um pouco mais europeus, mais tranquilos, mais sólidos e não mostrarem tanta pressa em chegar ao poder?

Assim, parece que o único objetivo de ambas as partes é impedir que a outra parte lá chegue primeiro.

 

Passos e Portas querem impedir a todo o custo que a esquerda se una e Costa acabe primeiro-ministro.

E Costa, Catarina e Jerónimo estão colados à pressa, e a cola que os une é apenas a vontade de enxotar Passos e Portas para fora de São Bento.

É pressa a mais.

Normalmente, quando estamos mortinhos por fazer qualquer coisa, não a fazemos bem. 

publicado por Domingos Amaral às 13:20 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Terça-feira, 13.10.15

Portugal: o Inverno está a chegar (Winter is coming)?

"A Guerra dos Tronos", uma grande série televisiva, decorre perante um medo permanente, um receio de algo apocalíptico, que está prestes a chegar.

"Winter is coming", dizem os personagens, sem nos explicar bem que Inverno é esse. Mas nós sabemos que é mau, muito mau, mesmo sinistro.

Foi disto que me lembrei nos últimos dias. Para os apoiantes da coligação PAF, e para muitos outros, o Inverno está a chegar. "Winter is coming!"

 

Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, existe uma possibilidade real do PS formar um governo apoiado pelo Bloco de Esquerda e pela CDU comunista.

O estado de choque do centro-direita é tremendo, o pânico generalizado, o ódio a António Costa é fino e requintado.

 

Leio certos comentadores e fico pasmado.

Rui Ramos, Maria de Fátima Bonifácio, José Manuel Fernandes, Henrique Raposo e muitos mais usam palavras duríssimas, insultos, acusações, destilando um fervor alucinado contra António Costa e a restante tralha de esquerda.

Para eles, é óbvio: "Winter is coming"! Vem aí o inverno, vem aí a desgraça, se Portugal cair nas mãos da esquerda, o país vai ser tomado de assalto por uma turba ululante e barbuda!

 

De repente, estamos em 1975 outra vez, não no Verão Quente, mas no Inverno Frio.

"Winter is coming!" Preparem-se, tenham medo, muito medo!

Já tiraram o dinheiro do país, já colocaram as pratas em lugar seguro, já marcaram o colégio no estrangeiro para os filhos?

Eu pasmo, mas há mesmo quem escreva que vai emigrar e levar os filhos para lugar melhor, um luxo óbvio, só acessível a alguns.

 

Que giro, ser refugiado político em Paris ou Madrid!

Com a mesma coragem que muitas das pessoas de direita tiveram em 74 e 75, pirando-se rapidamente para o Brasil, muitos na direita já avisam que se vão por ao fresco daqui, não querem ser governados "pelos comunas"! 

Ó meu Deus, mas estarão bons da cabeça? Que pânico é esse, que medo tão profundo assalta as vossas psiques?

 

Não seria melhor manter a cabeça fria, a calma e a tranquilidade?

O pânico, sempre ouvi dizer, é mau conselheiro, e o descontrole emocional é a razão de muito disparate.

Respirem fundo, e pensem um bocadinho, antes de mostrarem à exaustão tanto choque e pavor. Rapaziada, já não estamos em 75, os comunistas já não comem criancinhas ao pequeno-almoço, ok?

 

Aconteça o que acontecer, é bom lembrar a todos que Portugal é uma democracia parlamentar, e portanto todo e qualquer governo que emane da Assembleia da República é legítimo.

Um governo formado pelo PS, o BE e a CDU, pode ser bizarro, pode ser perigoso, pode ser um erro grave, pode ser isso tudo e mais alguma coisa, mas se é formado numa Assembleia eleita, é legítimo.

Insultar António Costa, gritar "golpe de Estado", acenar com o fantasma da Grécia, ou berrar que se vai emigrar, são reações de pânico e fúria, e não servem para nada.

 

Há dias escrevi aqui que o melhor para Portugal seria um governo de bloco central, formado pela coligação PAF e pelo PS, semelhante ao que existe na Alemanha.

Continuo a pensar o mesmo, e se essa é a única forma da coligação se manter no poder, acho que a malta de direita devia acalmar um bocado.

Insultar o Costa, e dizer que isto vai para o buraco, não ajuda nada a que se negoceie, com tranquilidade, um acordo possível.

 

No entanto, se esse acordo não for possível, o que tenciona o centro-direita fazer?

Os seus comentadores mais acérrimos vão pegar em armas, iniciar a guerra civil, invadir as ruas e as repartições, com uma fúria imensa?

Não acham, malta de direita, que estão a ter perigosos instintos de esquerda?

Esse apelo à revolta, ao ódio, à luta, à emigração, não é um bocado "esquerdalho"?

 

Pela minha parte, estou muito tranquilo. Não tenho nada a certeza que uma aliança de esquerda vá acontecer, pelo menos para já. 

Mas, se ela chegar, cá estaremos para lidar com o assunto, sem receios ou medos infantis.

Não me parece que Portugal vá voltar a 1975 em poucos dias, nem que os barbudos vão desatar a ocupar herdades, a sanear pessoas, a invadir empresas, ou a prender empresários.

Isto não é a "Guerra dos Tronos", rapaziada! 

 

PS: Sabem quantos países na Europa são governados por um partido que não foi o mais votado nas eleições? Sete! Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Luxemburgo e Letónia.  

 

publicado por Domingos Amaral às 10:58 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Terça-feira, 06.10.15

Passos devia fazer como Merkel fez, um governo com o PS

Pedro Passos Coelho é um admirador da senhora Merkel, e nos últimos quatro anos seguiu as ideias dela com muito empenho. 

Agora, devia também pensar no que ela fez em 2013, quando a Alemanha passou por uma situação parecida com a que Portugal está a viver.

 

Em Outubro desse ano, a CDU venceu as eleições, aliada à CSU da Baviera, mas os dois juntos não conseguiram maioria absoluta.

O Partido Liberal, com que Merkel tinha formado governo entre 2009 e 2013, caiu em votos, e portanto não era possível repetir a fórmula governativa. 

 

O que fez Merkel? Contra muitas vozes do seu partido, e contra muitas vozes do SPD (o equivalente ao nosso PS), Merkel propôs conversações entre os três partidos, com vista à formação de um governo.

As negociações demoraram quase três meses, e não foram nada fáceis, mas de um lado e de outro houve cedências, e em Janeiro de 2014 a Alemanha teve um novo governo, um bloco central formado por Merkel e Sigmar Gabriel, que a tem governado sem solavancos.  

 

Não será isso que Passos e Costa devem fazer agora? Perante um parlamento onde a única possibilidade real de maioria absoluta duradoura e estável é um acordo entre PSD/CDS e PS, não seria isso que eles deviam procurar?

Eu sei que existe muita acrimónia de parte a parte, as feridas ainda estão abertas e a sangrar, e há desconfianças profundas. Porém, campanha eleitoral é campanha eleitoral. Há ataques, rasteiras, caneladas, e tudo é feito para tentar vencer. Só que isso já passou, e agora trata-se de governar o país.

 

Do lado da coligação, é evidente que haverá a tentação de tentar imitar Cavaco em 85/87, quando ele governou com minoria, e governou bem, vencendo depois com uma maioria absoluta.

E, do lado do PS, é evidente que existe a tentação da vingança, fazer a Passos o que ele fez a Sócrates, entre 2009 e 2011. Cozê-lo em lume brando, até lhe dar a estocada final, deitando-o abaixo, como Passos fez ao rejeitar o famoso PEC IV.

 

Contudo, essas duas estratégias antagónicas esbarram contra as circunstâncias actuais, que são muito diferentes. Entre 85 e 87, Cavaco tinha folga financeira para ir dando uns bónus ao país, além de ter batido o pé nas negociações europeias, o que cai sempre bem.

Mas, em 2015, não há folga financeira, o caminho é muito curto, e o país não aguenta a instabilidade de guerrilhas permanentes.

Quanto à tentação do PS, também esbarra numa evidência: Passos não é Sócrates, não tem os problemas de credibilidade pessoal que o seu antecessor tinha.

 

A mim parece-me que não estamos em tempo de brincadeiras, e Passos e Costa, em vez de passarem um ou dois anos a tentar tramar-se um ao outro, deviam ser responsáveis, e pôr os olhos na Alemanha. Se Merkel e Sigmar Gabriel conseguiram ir para o governo juntos, porque é que em Portugal isso é impossível?

Num país que está numa situação de risco ainda elevado, era importante ambos mostrarem sentido de responsabilidades, e admitirem um governo conjunto.

 

E, para quem, seja de que lado for, prefere um acordo parlamentar, um "deixa lá passar o orçamento", em vez do PS no governo, a minha resposta é simples.

Com o PS também no governo, Portugal e os mercados tinham a garantia de que a solução era estável e duradoura, pelo menos para quatro anos.

Com apenas um "acordo parlamentar", ou a abstenção nos orçamentos, já sabemos que isso só duraria um ano ou dois, como aconteceu no passado com outros governos minoritários, e lá teríamos de ir outra vez para eleições prematuras, sem certeza de resultados inequívocos.   

 

Eu prefiro a instabilidade à dúvida permanente, a calma à tentação dos abismos.

Talvez hoje ainda poucos pensem assim, mas a função dos líderes é também andarem à frente da opinião pública e publicada, e pensarem mais no interesse nacional do que nos seus egos e nos interesses de curto prazo dos seus partidos.

 

PS: Para os leitores preocupados com o CDS, repito o que disse em cima: um governo entre PSD/CDS e PS. Deixar o CDS de fora, depois de tanto tempo junto ao PSD, seria um bocado injusto.

 

publicado por Domingos Amaral às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 05.10.15

Os vencedores e os mais ou menos

Em Portugal, é sabido, nunca ninguém perde as eleições. Líderes e partidos arranjam sempre uma forma de dourar a pílula e ver as coisas pelo prisma que mais lhes convém. Porém, há sempre vencedores mais vencedores do que os outros. Ora então vamos lá a ver.

 

1 - O grande vencedor é o Bloco de Esquerda.

É óbvio, passou de 8 para 19 deputados, uma vitória histórica para as meninas Catarina Martins, Mariana Mortágua e outras. O Bloco provou que ser radical e felino compensa, pois a esquerda dura gosta disso. Cresceu muito, e é o único que o pode dizer.

A partir da agora há porém um dilema. Continuará o Bloco radical, tentando crescer pela via ideológica? Ou sentirá a tentação de se aproximar do PS, para poder chegar ao Governo? Somados, o Bloco e o PS têm agora quase tantos deputados como a coligação PSD/CDS...

 

2 - O segundo grande vencedor é Marcelo Rebelo de Sousa.

A partir de ontem, o próximo presidente da República será uma personagem essencial para a vida do país, e Marcelo é de longe quem mais beneficia de uma vitória da coligação sem maioria absoluta.

Com Passos sem força para impor candidatos alternativos, com o CDS no bolso, com um PS fragilizado e uma esquerda dividida entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa, Marcelo ganhará quase de certeza, e até pode fazê-lo à primeira volta. Com o meu voto pode já contar.

 

3 - O maior derrotado é o PS de António Costa.

Apesar de ter tido melhores resultados que Sócrates em 2011, e que Seguro nas europeias, o PS de Costa fica muito longe daquilo que ambicionava, e nem sequer ultrapassa o PSD como o maior partido nacional. Costa terá a vida muito dura. Está entalado entre uma coligação mortinha por o destruir, as fações internas do PS mortinhas para ajustar contas com ele, e um Bloco de Esquerda mortinho por chegar ao poder. Se se fizer com a direita, Costa perde a esquerda; se se aliar à esquerda, Costa perde o centro político. Pode ter resistido ontem, mas tem uma via sacra pela frente.  

 

4 - Passos Coelho teve uma vitória de Pirro.

Como dizia Pirro, um grego, "mais uma vitória como esta e estou perdido". Passos pode dizer o mesmo. Há quatro anos, PSD e CDS foram separados às urnas e tiveram 50,5% na soma dos votos. Este ano, em coligação, ficam-se pelos 38,5%. Ou seja, a coligação é mais fraca hoje do que o PSD foi sozinho há quatro anos. Pelo caminho, perderam-se mais de 700 mil votos, uma enormidade, e foi-se a maioria absoluta. E, nas contas internas, as perdas do PSD são mais graves que as do CDS...

Passos terá de reconhecer que a sua governação, dura e demasiado à direita, é a principal responsável pela perda da maioria absoluta. O seu discuro de ontem foi humilde, mas a verdade é que será uma tortura para ele ter de entender-se com o PS e com o CDS ao mesmo tempo.  

 

5 - Portas tem razões para estar muito contente.

Em 2013, Paulo Portas quase dava cabo da sua carreira política, com a célebre "demissão irrevogável". Durante os últimos dois anos, muitos em Portugal repetiam que, se fosse sozinho, o CDS acabava. Pois bem, Portas levantou-se do chão, e negociou muito bem uma coligação, que apesar de perder a maioria absoluta mantém o CDS como o terceiro maior partido de Portugal.

Meter-se debaixo da asa de Passos foi uma estratégia muito esperta para o CDS e para Portas. Veremos é se o PSD, daqui a uns meses, não acha melhor fazer-se com o PS e deixar cair o CDS...

 

6 - Jerónimo de Sousa não conseguiu grande coisa.

Os comunistas até ganham um deputado, mas ser ultrapassado desta maneira supersónica pelo Bloco de Esquerda das meninas estreantes diz muito. O PCP foi incapaz de se adaptar às circunstâncias, e encontra-se à porta de um gueto, onde entrará e será remetido a uma total inutilidade se o PS e o Bloco se pensarem em entender.

O que pode fazer o PCP quando a esquerda mole é do PS e a esquerda dura é do Bloco? Pouca coisa... 

publicado por Domingos Amaral às 11:31 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Segunda-feira, 06.07.15

A Europa ainda é uma deusa grega?

Europa era uma deusa grega, que Zeus, o mais importante dos deuses do Olimpo, raptou um dia, por ela ser tão bela. Disfarçado de touro branco, Zeus levou Europa para uma ilha, e depois de regressar à sua forma divina, os dois apaixonaram-se e tiveram três filhos.

 

Porém, o pai de Europa, desgostoso, nunca encontrou a filha, e diz-se que vagueou por muitas terras, continente fora. A sua busca levou-o a locais que hoje conhecemos como Alemanha, França ou Itália, à procura de Europa, e foi por isso que o continente ganhou esse nome tão bonito.

 

Mas será que a Europa dos nossos dias ainda é uma deusa grega?

Não parece. As escandalosas declarações de alguns políticos europeus, o "bullying" financeiro que fizeram nas últimas semanas, a campanha indecorosa pelo "Sim" de quase todos os governantes europeus, mostram-nos que há uma fúria anti-grega difícil de aceitar ou compreender.

 

Com grande coragem, os gregos rejeitaram a continuação na estrada da austeridade, que não leva a lado nenhum. Porém, não creio que o resto da Europa tenha percebido a ideia. 

As declarações acintosas, de mau perder, e as proclamações de desprezo e promessa de mais dureza negocial, são um mau indicador do que aí vem. Pelos vistos, a Europa não tem nada de deusa grega.

 

Pelo contrário, parece um médico louco, que continua a receitar ao doente o mesmo tratamento, sem notar que ele está cada vez pior.

- Sr. doutor, estou a tomar isto há cinco anos, e não melhoro, pelo contrário. As dores são insuportáveis. Não devia mudar de remédio?

- Ahn? Pois...continue a tomar esses remédios e volte cá para o ano.

 

Foi contra esta inenarrável estupidez que os gregos se revoltaram, e por isso disseram "Não" de forma límpida e serena. Mas, os médicos continuam loucos, e na ausência de uma voz dissonante que os leve de volta à lucidez, nada mudará.

Memso quando os sinais de disponibilidade da Grécia são permanentes. A saída de Varoufakis, que lamento porque gosto dele, é mais uma demonstração de vontade de negociar.

 

Demitindo o seu ministro das Finanças, Tsipras acaba de dizer ao Eurogrupo que não serão o feitio e a personalidade de uma pessoa, seja ela quem for, que impedirão um acordo.

Todos os que diziam que o Syriza tinha uma estratégia óbvia de saída do euro devem agora reformular o argumento. Mais vontade de ficar no euro é difícil.

 

O problema não é, nem nunca foi, o que os gregos querem. O problema é o que os europeus não aceitam.

Há cinco anos que na Europa se repete o dogma de que austeridade é a única saída da crise. Como se fosse uma questão de fé, religiosa e inabalável. 

Ora, discutir com fanáticos é quase impossível.

 

Se os líderes europeus, e as suas instituições, não estão dispostos a mudar de rumo, e a experimentar uma abordagem nova e diferente, não há grande futuro.

Nem para a Grécia, nem para a Europa do euro.

Qualquer dia seremos todos como o pai da deusa, à procura de Europa sem a encontrar. 

publicado por Domingos Amaral às 12:15 | link do post | comentar | ver comentários (2)
 

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