Sexta-feira, 20.03.15

Salgado e a diferença entre a falência do GES e a falência do BES

Ontem, ao ouvir Ricardo Salgado, e depois de 100 dias de comissão de inquérito, fiquei com a absoluta certeza de que a responsabilidade pela falência do GES (Grupo Espírito Santo) é da família que o geria, com Salgado à cabeça.

Há anos que havia dívida a mais, maus negócios, um desastre angolano e uma fuga para a frente permanente.

O GES faliu porque a família e Salgado falharam rotundamente na gestão, disso não há qualquer dúvida.

 

Porém, o mesmo não se aplica ao BES. 

Enquanto no GES as responsabilidades da família não têm de ser partilhadas com ninguém, no BES há mais responsáveis.

Durante um ano, era possível o Banco de Portugal, o Governo e a troika terem actuado e salvo o BES.

Ricardo Salgado podia e devia ter sido removido da presidência do BES, provavelmente ainda em 2013, depois do presente do construtor civil ou da declaração de IRS que teve de ser corrigida.

Esse teria sido o momento ideal para alterar o rumo do BES, e se o tivessem feito, o descalabro não teria acontecido.

 

Porém, durante um longo ano, o Banco de Portugal, o Governo e a "troika", mesmo sabendo do descalabro, deixaram Salgado continuar à frente do BES.

Aprovaram um aumento de capital vergonhoso, e prometeram que não iam deixar cair o banco, incluindo ao próprio Salgado, como se prova pelas cartas conhecidas ontem.

Mesmo depois disso, ainda podiam ter evitado o descontrole nefasto que atingiu o BES em Julho.

Não o fizeram porque não quiseram, e por isso são também responsáveis pela falência do BES, e pelo abalo sísmico que o sistema financeiro português sofreu.

Esta nefasta história podia e devia ter terminado de outra forma. 

publicado por Domingos Amaral às 09:59 | link do post | comentar
Terça-feira, 17.03.15

Ulrich e a falência vergonhosa do BES

Finalmente, alguém foi à comissão de inquérito do BES dizer a verdade.

A prestação de Fernando Ulrich, ainda a decorrer, tem sido uma pedrada no charco da podridão que se instalou em Portugal nos últimos meses. 

O país da propaganda maravilhosa da "troika", como diz Ulrich, foi miserável na forma como lidou com o drama financeiro de um dos seus bancos privados mais importantes.

Ulrich tem sido arrasador: para a troika, para o governo, para o Banco de Portugal, para todos.

E o pior é que tem razão em quase tudo.

Hoje caíram finalmente e com estrondo vários mitos sobre o BES, graças a Ulrich, e todos deveríamos agradecer a sua honestidade e coragem.

 

O Mito de que ninguém sabia da dimensão do buraco do BES

É um mito falso. Todos sabiam. Sabia o governo, sabia Passos, sabia Vítor Gaspar, sabia o governador do Banco de Portugal, sabia a troika.

Todos, sem excepção, estavam informados sobre a gravíssima situação do BES.

E deixaram o banco entrar em colapso, sem fazer o que devia ser feito.

Desde meados de 2013 que Salgado devia ter sido afastado mas não foi, e desde finais de 2013 que o BES podia e devia ter sido salvo e não foi.

É absolutamente miserável que os poderes públicos portugueses e europeus tenham deixado acontecer a tragédia que aconteceu, sabendo de tudo há pelo menos um ano.

 

 

O Mito de que a "Troika" foi surpreendida.

É mais uma falsidade.

A "troika" sabia perfeitamente o que se estava a passar.

No entanto, o importante era Portugal sair do programa de ajustamento.

A propaganda da "troika", o caso de sucesso português era o essencial, o BES que se lixasse.

É evidente pelas declarações de Ulrich que houve um desejo intencional de branquear a situação até Maio, para que a troika pudesse sair de Portugal.

 

O Mito do Aumento de Capital Salvador. 

Como Ulrich bem diz, o aumento de capital do BES em 2014 nunca devia ter existido.

Foi uma vergonha um sistema financeiro ter aprovado um aumento de capital de um banco cuja situação era desastrosa.

Os accionistas foram violentamente prejudicados e as perdas de valor foram brutais.

Como é possível o Banco de Portugal ter aprovado um aumento de capital do BES quando já sabia que Salgado iria sair?

O prospecto do aumento de capital não informava sobre a saída de Salgado, mas todos, incluindo o Banco de Portugal, a troika e o governo sabiam que ela se ia dar mal o aumento de capital terminasse.

Ou seja, todos contribuíram para o brutal engano que essa operação foi.

Uma vergonha.

 

O Mito da Resolução como única solução possível.

Como Ulrich explicou, a "resolução" do BES foi uma péssima solução de recurso.

O Governo de Passos impediu outras possibilidades (nacionalização, empréstimo da troika, bail-in à Chipre).

A resolução é uma solução perigosa, e faz os outros bancos pagarem pelo desastre que não causaram.

Como Ulrich bem diz: "jogaram à roleta com o sistema financeiro português".

Veremos o que se vai passar em Agosto, quando forem conhecidas as propostas de compra do Novo Banco, e veremos se não haverá mais cataclismos financeiros.

 

Em conclusão: Ulrich falou e hoje tornou-se mais claro o que eu aqui escrevi no ano passado.

O Governo, o Banco de Portugal e a "troika" foram desastrosos no caso BES.

Com gente competente e séria nesses cargos, Salgado há muito que teria saído de cena, e o colapso do BES teria sido evitado. 

Mas, a propaganda do país das maravilhas é o que é. 

 

 

 

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 13:37 | link do post | comentar | ver comentários (4)
Quarta-feira, 11.02.15

Champions da semana: Platão-Beethoven e Merkel-Tsipras!

Hoje é o dia do primeiro round do grande Alemanha - Grécia.

Poucos países europeus poderiam proporcionar um combate tão épico, e com tantas ressonâncias históricas e culturais. 

A Grécia, berço da Europa, contra a Alemanha, o país maior e mais rico.

Na cultura, por exemplo, trata-se de um fundamental combate entre a música clássica alemã e a filosofia grega.

Quem foi mais importante para a Europa?

É difícil de dizer, mas os quartos de final de uma liga dos Campeões cultural entre alemães e gregos são entusiasmantes.

 

Imaginem: um primeiro jogo entre a música de câmara de Bach e a Alegoria da Caverna de Platão.

Pela minha parte, é Bach 0 - Platão, 2.

E que tal um Sócrates - Beethoven? O Método Socrático contra a 9ª Sinfonia.

Aposto num Sócrates, 1 - Beethoven, 2.

O terceiro jogo, também ele épico, é entre Mozart e Aristóteles. A Flauta Mágica defronta a Lógica.

É um grande jogo, o mais disputado, mas Aristóteles acabará por vencer nos penalties.

Por fim, temos um Wagner - Xenofonte, onde o alemão ganhará vantagem, vencendo por 4-0, devido à grande cavalgada das Valquírias!

 

Nas meias-finais, teríamos dois grandes combates de Titãs: Platão versus Beethoven e Aristóteles contra Wagner!

Caramba, isto é que seria uma Champions cultural a sério!

Porém, na vida real não teremos alta cultura, mas sim boxe financeiro entre a Alemanha e a Grécia.

Na reunião do Eurogrupo, vão defrontar-se frontalmente o sr. Schauble, ministro das finanças da Alemanha, e o sr. Varoufakis, o responsável pela mesma pasta da Grécia.

 

A assistir, além do mundo inteiro, estarão os outros 16 ou 17 países do euro (não tenho bem a certeza quantos são, há sempre alguém a entrar...), que vão ouvir os argumentos de um lado e de outro, e depois dar pontuações.

Vantagem Schauble, ponto para Schauble, ponto para Varoufakis, grande serviço do grego, punch de direita de Schauble, upppercut, ponto para Schauble, etc. 

Enfim, será apenas o primeiro round, mas há muito tempo que na Europa não se assistia a um combate tão fascinante.

 

E no dia seguinte, o segundo round será ainda mais intenso, com a subida ao ringue de Merkel, a toda poderosa e campeã da Europa durante seis anos consecutivos, e o challenger Tsirpas, cheio de genica e pinta!

Cá estaremos todos, para ver. Merkel versus Tsipras é quase tão emocionante como uma final cultural entre Beethoven e Aristóteles.

Se bem que, se fosse um Platão-Wagner, era outra loiça, outro gabarito! 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (3)
Segunda-feira, 09.02.15

O Syriza e os deuses gregos

Ontem, enquanto esperava pelo derby, revi o filme "Tróia", que passou na RTP 1.

De repente, dei por mim a pensar nos deuses gregos, na mitologia antiga, e se ela nos pode ajudar neste momento de crise entre a Grécia e a Europa.

Irá Zeus apoiar Alexis Tsipras, como fez com Aquiles e Agamêmnon, possibilitando a queda de Tróia?

 

Quem será Varoufakis nesta história?

Pátrocolo, o amigo de Aquiles? 

Varoufkis mais pinta que isso, com aqueles casacos negros, tipo Manchester nos anos 90.

E também não creio que ele se vá disfarçar, como Pátrocolo fez, o que levou Heitor a matá-lo por engano, pensando que era Aquiles.

Não é provável que Varoufakis coloque uma peruca, e ainda menos que Schauble mate alguém, sobretudo por engano.

 

Mais importante ainda, é saber qual o calcanhar de Aquiles da Grécia no presente.

Aquiles era um guerreiro fabuloso, pois a sua mãe mergulhara-o na água de um rio mágico.

Só que a pobre mãe pegara-o por um dos calcanhares, que por isso não conseguiu molhar, e Aquiles ficou vulnerável nesse ponto. 

Bem, a Grécia actual não é nenhum Aquiles, forte e invulnerável, pois está cheia de problemas.

Mesmo assim, tem um calcanhar frágil.

Os bancos, de onde o dinheiro foge, são o elo mais fraco do país, e pode ser por aí que a Grécia se vá perder.

 

 

Mas, atenção: antes de ser morto, Aquiles matou Heitor! 

E, pelo caminho, os gregos destruíram a orgulhosa Tróia!

Será a saída da Grécia do euro o principio do fim da União monetária?

Toda a gente acha que não, os gregos que se lixem, nós continuamos sem eles, é o que se diz em Berlim.

Pois...Também ninguém acreditava que Tróia ia cair e foi o que se viu. 

Embora, convém lembrar, a guerra tenha durado dez anos...

Como ainda só vamos em quinze dias, temos tempo.

 

E terão Tsipras e Varoufakis na manga um cavalo de Tróia, com que iludam a Europa?

A ideia, ao que parece, terá sido de Ulisses, o rei de Ítaca e protagonista da Odisseia, que se diz ter dado o nome à cidade de Lisboa. 

Ligações a Portugal, ajudando os gregos? Com o que tenho ouvido dizer ao nosso governo, o Ulisses vai ser outro.

O mais provavel é aparecer um aliado vindo da Rússia, para a Grécia minar a Europa.

Tsipras pode sempre pedir dinheiro a Putin, o que deixaria a Europa muito irritada.

Contudo, esse seria um cavalo de Tróia um bocado burro. 

 

E será a bela Helena de Tróia alguma ministra do Syriza, que nós por agora ainda desconhecemos?

A pobre Helena apaixonou-se por Páris, que a roubou ao marido grego, o zangado Menelau.

Foi por isso que a guerra começou, e que os gregos se enfureceram com os troianos. 

Contudo, por mais que a gente puxe pela imaginação, não se vê nenhuma Helena na jogada.

Mulheres por quem valha a pena matar e morrer?

Nada disso: a querela entre a Europa e a Grécia não tem paixões dessas.

É sobre dinheiro, nada mais. Dívidas e coisas assim. 

 

Merkel, Hollande, Draghi, não estão à altura de um Heitor, de um rei Príamo, de uma Afrodite!

Merkel como deusa do amor é uma visão verdadeiramente horripilante!

E mesmo Tsipras e Varoufakis, ainda terão de penar muito para chegarem perto de um Ajax, já para não falar nos mirmidões ou em Aquiles. 

A verdade é que é difícil gerar heróis mitológicos com deficits orçamentais e dívidas públicas, essa é que é essa.

Um futuro Homero terá enormes dificuldades para escrever uma nova Ilíada. 

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 11:02 | link do post | comentar
Sexta-feira, 06.02.15

David contra Golias, ou o Syriza contra uma hidra europeia com muitas cabeças

A luta entre o Syriza e a Europa é uma espécie de David contra Golias.

De um lado está um partido que nem sequer teve a maioria absoluta dos votos nas eleições, e que governa agora um país pequeno, que vale cerca de 2,5% da economia europeia. 

Do outro está uma hidra de muitas cabeças: a troika, o BCE, a Comissão Europeia, o FMI, a Alemanha, o Eurogrupo onde estão representados os outros 17 países do euro, etc. 

Não seria de esperar que o David, em menos de duas semanas, conseguisse obter grandes vitórias, e muito menos aquilo que defendeu em campanha eleitoral, onde na Grécia, tal como cá, se dizem muitas coisas só para ganhar!

 

Passos Coelho, por exemplo, na campanha eleitoral prometeu acabar com a austeridade, não descer salários nem pensões, e não aumentar os impostos. Depois, fez tudo ao contrário.

Para ganhar as eleições, diz-se muita coisa, e o Syriza fez o mesmo: perdão da dívida grega, fim da austeridade, subida geral dos salários, etc. 

Portanto, há sempre que dar um desconto nestas coisas: o que se diz em campanha, serve para tomar o poder. Depois, há que perceber o que se pode ou não fazer.

 

É pois normal que, ao longo destas primeiras duas semanas, o Syriza tenha anunciado algumas medidas que quer levar à prática (subida do salário mínimo, suspensão de duas privatizações, etc), e ao mesmo tempo deixado cair pelo menos uma das suas bandeiras, o perdão de metade da dívida grega. 

Isso só mostra que, apesar de querer mudar algumas políticas internas, o Syriza tem flexibilidade para compreender que não pode pedir loucuras aos seus parceiros europeus, nem subverter todas as regras da União.

 

Para já, parece-me que o Syriza marcou pontos na operação de charme que fez em várias capitais europeias. Em Londres, Paris, Roma, conseguiu algumas declarações simpáticas dos governantes locais. 

É verdade que na Alemanha não foi assim, mas também ninguém esperava que Schauble o recebesse com palmadinhas nas costas e de braços abertos.

 

Já quanto ao BCE o caso fia mais fino. 

A decisão do BCE em deixar de aceitar a dívida grega como colateral foi um golpe sério nas intenções do Syriza, aumentando o perigo de não existir acordo.

Porém, logo no dia seguinte, talvez com um pouco de sentimento de culpa, e certamente com vontade de não lançar demasiadas achas para a fogueira, o BCE fez saber que a ajuda de emergência aos bancos gregos pode ser usada, e há 60 mil milhões à disposição para qualquer eventualidade. 

Ou seja, deu um golpe forte, mas 24 horas depois tentou suavizá-lo. 

 

Como seria de esperar numa negociação entre um David e um Golias, ou mesmo vários Golias, é óbvio que o Syriza terá sempre muitas dificuldades, mas não me parece de todo impossível que possa existir um acordo entre todos.

É claro que o Syriza terá de ceder em algumas áreas, mas se conseguir uma folga para esbater a austeridade interna, se conseguir acabar com a instituição "troika", negociando diretamente com as partes, e se conseguir uma extensão dos prazos de pagamento da dívida, já será um bom feito.

 

É preciso recordarmos que este é apenas o início de um longo processo de negociações, um processo que não termina com o primeiro passo, um acordo para o programa de assistência, mas que se vai prolongar por vários meses, ou mesmo anos.

É evidente que este momento inicial é importantíssimo, mas é apenas a primeira de muitas batalhas, e não julgo que se vá poder dizer que o Syriza foi derrotado ou vencedor. 

Na Europa, as negociações são permanentes, não uma questão de tudo ou nada. 

Como dizem os chineses, uma longa jornada começa com o primeiro passo.

Se o Syriza conseguir que a Europa dê um primeiro passo em direção a uma mudança de políticas, já será muito bom.

publicado por Domingos Amaral às 11:13 | link do post | comentar
Segunda-feira, 02.02.15

E se o Syriza conseguir ajudar Portugal?

Em toda a Europa, Portugal e Espanha são os dois países que estão mais alinhados com a linha dura de Merkel.

Tanto Passos Coelho como Rajoy já fizeram saber que não querem ouvir falar em conferências sobre a dívida ou sobre o fim da austeridade.

Faz sentido esta linha tão dura?

 

É compreensível que quem passou mais de três anos a defender as suas políticas não queira mudar.

Além disso, há alguns resultados positivos, seja em Espanha, seja em Portugal.

Tanto num caso como no outro, há pequenos aumentos do crescimento económico, e uma pequena descida do desemprego.

Os bancos espanhóis e portugueses estão hoje um pouco melhor, e as exportações também se vão aguentando.

Mas talvez a razão seja outra: em ambos os países vai haver eleições depois do Verão.

 

Entende-se pois que Passos e Rajoy tenham escolhido a linha dura, e estejam contra o Syriza.

A vontade de alterar regras, acabar com a austeridade, ou discutir a questão das dívidas soberanas, é uma afronta para quem tanto defendeu essas políticas, tanto as praticou, e agora vê alguns sinais positivos.

Tanto Passos como Rajoy vão lutar com unhas e dentes pela sua estratégia, que eles julgam vencedora, e tudo o que não querem é que a Europa lhes tire o tapete a uns meses das eleições.

 

Porém, talvez fosse inteligente não ser tão radical, pois há sinais de que as coisas na Europa estão a mudar.

Por mais que se diga que os alemães não querem ceder, há outros intervenientes que defendem uma linha mais suave.

França, Itália e Irlanda já deram sinais de maleabilidade.

Junker, este fim de semana, levantou a possibilidade de a "troika" acabar, uma das imposições mais simbólicas do Syriza.

Também Obama se pronunciou contra a austeridade.

Embora no governo alemão Schauble faça de "polícia mau", as palavras de Merkel (o "polícia bom") não foram demasiado violentas, e fazem crer que se podem aceitar algumas mudanças.

 

A negociação entre a Grécia e a Europa ainda agora está a começar, e é por isso que me parece que a linha dura de Passos e Rajoy é um pouco prematura. 

Até porque, se o Syriza conseguir convencer a Europa de uma estratégia alternativa à austeridade para aplicar na Grécia, ou mesmo de um alívio na questão da dívida pública, isso é bom para os interesses de Portugal.

 

Ser muito definitivo, recusando qualquer mudança, faz sentido para tentar vencer eleições, mas pode não ser a estratégia que melhor serve o interesse nacional.

Portugal e Espanha podem beneficiar muito das lutas do Syriza, mesmo que os seus primeiros-ministros, por calculismo eleitoral ou fervor ideológico, não o queiram admitir. 

 

publicado por Domingos Amaral às 12:42 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Quinta-feira, 29.01.15

Os radicais do Syriza e os outros radicais

Por vezes, as palavras têm significados que são um bocado enganadores.

O Syriza, por exemplo, chama-se a si mesmo "radical", e portanto toda a gente o posicionou como tal.

No entanto, se virmos as suas primeiras medidas que já foram anunciadas, não se podem considerar muito radicais.

Despedir os assessores dos ministérios e voltar a empregar as senhoras da limpeza que haviam sido despedidas, não é uma coisa nem muito radical, nem muito custosa.

Suspender a privatização de uma ou duas empresas públicas não é propriamente uma medida radical, houve vários países europeus que suspenderam, ou adiaram, privatizações.

Repor o salário mínimo para o valor que tinha antes da troika chegar à Grécia, só pode ser considerada uma medida radical se usarmos o mesmo termo para caracterizar a anterior descida.

Quem foi mais radical? A "troika", que desceu o salário mínimo em 30% ou o Syriza, que o sobe no mesmo montante?

 

E é precisamente esse o ponto da minha argumentação: hoje, de tão habituados que estamos a certas medidas que têm o apoio da Europa, já nem as consideramos radicais.

Por exemplo, cortar os subsídios de Natal e Férias em 2012, foi uma medida radical?

Eu acho que foi muito radical e exagerada, bem mais que a subida do salário mínimo do Syriza.

E cortar fortemente os salários dos funcionários públicos, mais de 10% em muitos casos, é radicalismo ou é um "mal necessário"?

E cortar fortemente as pensões, é uma política radical?

Eu acho que é, muito mais do que suspender as privatizações de uma ou duas empresas na Grécia.

E realizar um "aumento brutal" de impostos, como fez Vítor Gaspar, é uma política radical?

Eu acho que é bem mais radical do que readmitir 600 empregadas de limpeza...

 

A verdade é esta: nos últimos anos, as políticas de austeridade foram muito radicais, muito extremadas, muito violentas. Nunca na história de várias democracias se tinha ido tão longe.

Os programas de ajustamento das "troikas" é que foram muito radicais e brutos.

Porém, como foram governos de direita, ou de centro-esquerda, que as levaram à prática, isso nunca foi considerado "radical".

Como eram pessoas de fato e gravata, muito sérias, que os impunham, não eram "radicais".

Porém, agora que o Syriza chegou ao poder, eles é que são os "radicais".

Não por causa do que fazem, mas porque se chamam assim, ou porque têm filhos chamados Ernesto, em homenagem ao Che Guevara.

 

As percepções são importantes, bem sei, mas a verdade é que até agora, ainda não vi muito radicalismo nas propostas do Syriza.

Se isto é Che Guevara, vou ali e já venho.

O Syriza e as suas propostas de ontem vão contra a corrente de pensamento dominante, isso é verdade, mas isso não quer dizer que sejam radicais.

Mesmo a conversa sobre o perdão da dívida, é tudo menos radical.

Já houve centenas de países, em muitos momentos históricos, que tiveram perdões de dívida, e nada de muito grave se passou.

 

publicado por Domingos Amaral às 10:22 | link do post | comentar
Segunda-feira, 26.01.15

O Syriza é um filho bastardo da Sra Merkel, mas não é um monstro

Quando a direita é torta e pouco inteligente, a esquerda aproveita bem.

Há anos que isto estava escrito no destino.

A teimosia e o egoísmo da direita europeia geraram o Syriza.

O partido grego que acabou por vencer, e bem, é um filho bastardo da Sra. Merkel.

A mãe da austeridade, de tanto obrigar os povos ao sacrifício, gerou bastardos revoltados e zangados.

É isso que sempre acontece quando as pessoas são obtusas.

 

Ao longo de cinco anos, entre 2009 e 2014, a direita europeia impôs uma política exagerada, errada e contraproducente.

Merkel, mas também Sarkozy, Oli Rehn, Trichet, Rajoy, Samaras, Passos Coelho e outros, aplicaram com entusiasmo políticas de austeridade duríssimas.

A Grécia, a Irlanda, Portugal, mas também a Espanha, a Itália, a França, até a Holanda, foram obrigadas a cortes violentos nas despesas e a uma cura de emagrecimento forçada, mas supostamente salvífica e redentora.

 

Nunca se chegou à terra prometida dos austeritários.

A Europa veio de crise em crise, desde 2009 que não sai dela.

Porém, a direita europeia não admite que esse podia não ser o melhor caminho.

Mais do que isso: a Sra Merkel quis mesmo impedir todos os avanços positivos que ainda se iam conseguindo.

O Mecanismo Europeu de Estabilização, a União Bancária, a intervenção do BCE, foram sempre adiados, sabotados ou fortemente criticados pela Alemanha.

Ao longo de cinco anos, Merkel só tinha uma resposta para tudo: austeridade e reformas estruturais.

 

Tudo lhe saiu furado. As economias nunca recuperaram e as sociedades começaram a reagir.

Na Grécia, Itália, Espanha, França, até na Alemanha e no Reino Unido nasceram movimentos políticos hostis.

Já em 2014, em Maio, quando se deram as eleições europeias, era evidente que algo estava em curso.

A crise saltara das finanças para a economia, e agora saltava desta para a política.

Estavam a nascer os filhos bastardos da austeridade. 

Porém, a sra Merkel e os seus "boys", como Rajoy ou Passos, enfiaram a cabeça no chão, como a avestruz.

 

Fatalmente, um dia algo iria acontecer, e esse dia foi ontem.

A partir de agora, há uma alternativa à austeridade. 

Os povos zangados podem unir-se e obrigar a mãe a concessões.

Na dívida pública, no fim da austeridade, na união política, há muito a fazer para consertar os danos que Merkel e seus "muchachos" provocaram.

 

E descansem as almas mais sensíveis: o euro não vai acabar.

Isso é a conversa do costume, a chantagem do "não há alternativa", do "tem de ser". 

Estão errados. O Syriza vai surpreender, e a Europa vai mudar para melhor. 

 

 

 

publicado por Domingos Amaral às 10:19 | link do post | comentar
Terça-feira, 20.01.15

Soares é o bisavô zangado e rezingão que está ao canto da sala

Desde que deixou de ser Presidente da República, há quase vinte anos, que a carreira política de Mário Soares entrou em lenta, mas permanente, decadência.

Depois das candidaturas falhadas ao Parlamento Europeu e a Belém, Soares limita-se a intervir na vida política através das palavras.

Fala, fala muito, fala sobre tudo e sobre nada, e usa um radicalismo verbal que espanta em muitos casos.

Desta vez, atacou Cavaco Silva, chamando-lhe "salazarista convicto"!

 

 

Nem vale a pena tentar racionalmente explicar esta adjectivação, mas vale a pena constatar que é mais um remate ao lado.

Sim, doutor Soares, mais uma vez falhou o golo.

É que, se há coisa que Cavaco não tem sido, é salazarista!

Salazar mandava em Portugal, tinha convicções profundas, dava ordens graves, mantinha o regime controlado pelo seu pulso de uma forma autoritária, perseguindo os inimigos.

Cavaco salazarista? Nada mais longe da verdade.

Não manda, pouco influencia, fala mal, tem intervenções infelizes, perdeu carisma, autoridade e influência.

Ou seja, tudo ao contrário de Salazar. 

 

Como arma política, as diatribes do doutor Soares são cada vez mais ineficazes.

Ele, que nos seus tempos foi um político hábil, contundente, certeiro, capaz de arrastar multidões atrás de si, hoje não é nada disso, e limita-se a parecer um incontinente verbal, que não fica calado porque não quer.

Ora, dá-me a sensação que, não só Soares perde muito do seu prestígio, como parece violentamente frustrado com o facto de ter envelhecido.

A ideia que fica é que ele não lida bem com a ausência de poder que hoje tem, e por isso tem de ser cada vez mais radical nas suas palavras para ser ouvido.

Se eu berrar com mais força, pode ser que alguém me oiça, parece ser essa a estratégia permanente de Soares.

 

A verdade é que isso não resulta.

Ninguém muda os seus comportamentos políticos só por causa dos "soundbites" de Soares.

Nem no PS, nem no resto do país.   

Há quem já não o suporte, há quem ainda tenha ternura por um velho combatente, mas para a maior parte das pessoas este radicalismo verbal, esta matraca que não pára, é apenas ligeiramente incómodo.

Soares é o bisavô zangado e mal disposto, que está sentado ao canto da sala que é a democracia portuguesa.

As pessoas ouvem os seus berros, e depois encolhem os ombros, como quem diz: pronto, lá está ele outra vez com as manias dele.

Apetece perguntar: já bebeu o seu chá, já fez o seu xixizinho?

Então porque é que está tão maldispostinho, bisavô Soares?

Vá lá, está aqui a sua bengala, vamos dar um volta ao jardim, apanhar sol...

 

Churchill disse um dia que, em democracia, todas as carreiras políticas acabam mal, pois ou acabam com uma grande derrota, ou acabam com a morte.

Esqueceu-se de dizer que podem acabar também como a vida de muitas pessoas, que envelhecem devagar e lentamente, castigando-nos com berrarias exageradas e caprichos inúteis, que nós somos forçados a aturar.

 

publicado por Domingos Amaral às 10:21 | link do post | comentar | ver comentários (12)
Segunda-feira, 19.01.15

É um drama o Syriza ganhar as eleições na Grécia?

O melodrama da Grécia tem sido sempre um enorme exagero.

Como pode uma economia que vale apenas 2% da zona euro colocar tudo em causa?

É assim como se a questão de saber quem governa a Madeira fosse essencial para Portugal.

Ora, como se sabe, Jardim e o PSD governaram a Madeira durante décadas e o resultado foi ainda pior do que o continente, com uma dívida colossal.

Mas, a dívida da Madeira valia pouco, no total da dívida portuguesa, e o mesmo se passa com a Grécia.

Os seus milhões de euros de dívida são uma gota de água no oceano das dívidas públicas de todos os países europeus.

 

Enão, porque é que que a Grécia é tão importante, e há tanto melodrama à volta dela?

A verdade é esta: a Grécia é importante porque o país pode estar à beira de desafiar o pensamento único europeu (leia-se alemão)!

Como sabemos, a Sra Merkel impôs uma linha dura e austeritária à Europa, desde 2010, e a Grécia foi a primeira a levar com essas medidas draconianas.

Merkel queria o sacrifício dos devedores, e não admitiu até hoje qualquer desvio da linha original.

Austeridade para cima dos gregos, nada de reestruturar dívidas, nada de mutualizar dívidas na Europa, e nada de aumentar a despesa pública nos países com dívidas grandes.

 

Infelizmente para todos nós, esta dieta não produziu grandes resultados, pelo contrário.

A austeridade provocou recessão, desemprego, e os países em vez de diminuírem as dívidas, aumentaram-nas!

Devido à austeridade da Sra Merkel, a Europa afocinhou na recessão e na deflação.

Pior: por todo o lado, os movimentos políticos extremistas estão em crescimento.

Na Inglaterra, em Espanha, em França, em Itália, na Grécia, mesmo na Alemanha, crescem os partidos que não aceitam a via oficial germânica, e aumentam os radicalismos nacionalistas, e os desejos contra o euro.

 

O Syriza, que a Sra Merkel tanto despreza, é um filho bastardo da própria Sra Merkel.

Foi à conta da austeridade, da recessão e do desemprego gregos que o Syriza medrou e cresceu.

É um filho revoltado, e como costuma acontecer nesses casos, a sua revolta é contra os pais, ou neste caso a mãe.

Embora nos últimos tempos, prestes a vencer as eleições, o Syriza tenha moderado o seu discurso, a verdade é que pela primeira vez pode chegar ao poder um contestarário do discurso oficial.

 

E, regresso à pergunta de partida, qual a gravidade disso?

É evidente que isso é grave...para os paizinhos da austeridade.

Pela primeira vez, alguém os pode obrigar a mudar um pouco a política, e a terem de gramar com alguém que não pensa como eles, e quer fazer as coisas de forma diferente.

Um herético no poder, pensa a sra Merkel? Pode lá ser! Isso é inaceitável!

Porém, a democracia é assim, e se o Syriza lá chegar, é com ele que Merkel e a Europa terão de negociar.

 

Será isso que se passará em seguida: uma negociação entre o frágil Syriza e a toda poderosa Merkel.

É evidente que quem pensa que o Syriza conseguirá mudar muito as coisas, deve baixar as expectativas.

Negociar na Europa não será fácil, mas também não é drama nenhum.

É bom que os políticos europeus se habituem a isso, a ter de negociar com quem, em cada país, é eleito pelo seu povo.

E é bom também que os eleitos em cada país se habituem a isso, a ter de negociar com a Europa, neste caso com a Sra Merkel.

 

A democracia é negociação permanente, e só pode ser positivo que alguém, na Europa, obrigue a Sra Merkel a negociar, coisa que ela pouco fez nos últimos tempos.

Desta vez, terá de negociar com o seu filho bastardo.

Pode não ser agradácel para ela, mas também não é o fim do mundo. 

publicado por Domingos Amaral às 10:24 | link do post | comentar
 

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